Há muitos anos que uso, pendurada no meu fio, uma medalha com uma letra em aramaico. É um símbolo antiquíssimo que quer dizer «Deus está contigo»! Deus está comigo. Nunca tive qualquer dúvida. E os ciganos também me consideram uma como eles desde que uma vez abri a porta grande e pintada de verde do quintal e os mandei entrar a todos. Eram onze. Entraram e sentaram-se debaixo da nespereira, em cima do carro das mulas que envelhecia desde o tempo do avô, nos degraus da cozinha. Não sei o que me passou pela cabeça mas eles tinham batido à porta, entraram e agora estavam ali e povoavam o quase silêncio dos meus dias com a sua voz cantada, suas histórias de vida ao acaso, seu perfume a lenha queimada e animal saudável. Disseram-me que estavam fartos de pão seco. Pelas estradas da minha terra só lhes tinham dado pão seco, pão duro. As crianças precisavam de tomar qualquer sopa quente. E mostravam-me sacos cheios de bocados de pão velho, de côdeas, de fome adiada. Então combinámos ali, como se nos conhecêssemos desde o princípio do mundo, um almoço de açorda com azeitonas. Fui apanhar um grande molho de coentros enquanto a cigana velha acendia uma fogueira para fervermos uma panela de água com todos os rabos de bacalhau que achei na cozinha. As outras amamentavam os filhos enquanto os homens conversavam e fumavam, tranquilamente. Fizemos a açorda no alguidar de amassar o pão. Nunca me lembro de ter sido tão feliz. O poder dispor de qualquer coisa e compartilhá-la com tanta gente, naquela naturalidade espontânea, o ter alhos e coentros e um alguidar de barro que chegasse para todos comerem era muito bom. Quando a Mãe chegou da casa da minha tia, eu e os onze ciganos comíamos açorda com azeitonas e contentamento. Era a grande família por mim desejada. Os risos! Uma alegria tão grande, tão visível, tão verdadeira! Respirava-se naquela hora um ar tão fraterno e simples que minha Mãe olhou em volta, viu as flores pisadas, o chão que ela mantinha sempre impecável todo sujo e apenas disse:
- Há melancias lá dentro. Vou buscá-las.
E nas mãos dos ciganos, negras, de dedos ávidos e sedentos, as talhadas de melancia nasceram como uma lua nova. Uma das crianças ergueu as mãos e começou
a dançar. Os outros batiam palmas marcando o ritmo. Outra cigana, já mãe, levantou-se e dançou também. A mais velha de todas agarrou-me pelos ombros e colocou-me no meio deles. Então levantaram-se todos e começaram a dançar à minha volta, cantando uma estranha música de que ainda recordo as lágrimas que me acendeu. A minha Mãe estava comovida mas eles não a chamaram a compartilhar daquele momento. Era como se ela não existisse e o mundo fosse só meu e deles, num tempo absolutamente certo, com espaço e abundância. E fraternidade.
Foi então que a cigana velha disse:
- Deus está contigo!
E tirou do fundo de uma algibeira muito funda, que um avental negro disfarçava, esta medalha com o símbolo aramaico de que nunca mais me separei!
COLAÇO, Maria Rosa MARIA-TONTA, COMO EU, AMBAR.

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